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quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Desabafo

Hoje apetece-me comprar um bilhete só de ida
Para um sitio bem longínquo e bem deserto,
Talvez para uma ilha desconhecida e perdida,
Talvez para onde o longe nunca se faça perto.
Hoje apetece-me desaparecer para longe daqui
Para um sitio onde não tenha de ver ninguém,
Talvez para um sitio de que nem falar já ouvi,
Talvez para um sitio onde nunca tenha ido ninguém.
Hoje apetece-me descer o pano e sair de cena
Para de uma vez por todas acabar com esta peça,
Talvez para não ter de ver os olhares de pena,
Talvez para uma distância que o tempo não meça.
Hoje apetece-me ir para qualquer parte incerta
Para não ter de ouvir nem ver quem quer que seja,
Talvez para ignorar a raiva que em mim desperta,
Talvez para que nunca mais ninguém me veja.
Hoje apetece-me deixar de ser eu, deixar de existir
Para deixar de ter de repetidamente passar por isto,
Talvez para deixar de sentir dentro de mim tudo isto,
Talvez para toda a gente saber que calo mas não desisto.
Hoje apetece-me dizer tudo o que me vai na alma
Para finalmente perceberem que me fazem sofrer,
Talvez para verem que vivo em aparente calma,
Talvez para me deixarem quieta com o meu viver.
Hoje apetece-me mandar tudo para o ar, para as urtigas
Para finalmente dizer tudo o que trago preso em mim,
Talvez para exorcizar memórias usadas e antigas,
Talvez para este tormento interno chegar ao fim.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Na face branca de uma qualquer folha de papel
Desenho os traços revoltos e negros da minha alma,
Os traços que hoje me atormentam e desesperam,
Os traços que hoje quase me fizeram perder a calma,
Os traços que hoje quase vida própria tiveram,
Desenho os traços profundos e negros da revolta
Que hoje se acendeu nas profundezas do meu ser,
Que hoje se perdeu sem hipótese de haver volta,
Que hoje incendiou as horas lentas do meu viver,
Desenho os traços desiludidos e negros da vergonha
Que senti face a esse comentário frio e mesquinho,
Que senti face a essa frieza crua e quase medonha,
Que senti face a esse despeito que em surdina adivinho,
Desenho os traços magoados e negros do meu coração
Depois de ter ouvido essas palavras venenosas e letais,
Depois de ter ouvido e sufocado a minha decepção,
Depois de ter percebido que as coisas não serão iguais,
Desenho os traços enraivecidos e negros do meu pensar
Que me toldam a vista e vão entorpecendo os sentidos,
Que me fazem ter força para me erguer e para lutar,
Que me relembram sentimentos há muito adormecidos,
Na face branca de uma qualquer folha de papel
Desenho os traços revoltos e negros da minha alma,
Os traços que hoje me atormentam e desesperam,
Os traços que hoje me fizeram perder toda a calma,
Os traços que a partir de hoje em cada sombra te esperam!

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Há dias assim...

Há dias em que sou toda Primavera,
alegre, bem disposta, florida e radiosa,
uma ave que voa feliz na sua esfera,
um leve e harmonioso botão de rosa.

Há dias em que sou toda Verão,
brilhante, colorida e encantadora,
sorriso que passa de mão em mão,
esperança juvenil e sedutora.

Há dias em que sou toda Outono,
melancólica, nostálgica e calada,
um sonho que não encontra o dono,
uma sensação esquecida e ignorada.

Há dias em que sou toda Inverno,
triste, solitária, cheia de mágoa e dor,
uma alma que já viveu o seu inferno,
um desejo que já perdeu a sua cor.

Há dias em que sou quatro estações,
alegria, luz, crepúsculo e vento,
há dias em que não controlo emoções,
há dias em que tudo é desalento.

Há dias em que sou apenas eu,
onde me perco, choro e rebento,
onde lembro o que o tempo esqueceu,
onde cai e me ergo com novo alento.

Há dias em que sou eu somente,
onde me encontro, rio e aguento,
onde volto a ser Verão novamente,
onde volto a ser bálsamo e unguento.

És...

És o meu mágico eclipse lunar,
o feitiço que me faz flutuar,
a poção que me deixa embriagada,
és o meu tudo e o meu nada.

És o meu poço de mágicos desejos,
o fruto de todos os meus ensejos,
a miragem que vem no deserto,
és o meu longe e o meu perto.

És a minha estrelinha da sorte,
o brilho que me faz ser forte,
a certeza no meio da confusão,
és a minha luz e a minha escuridão.

És a minha loucura anunciada,
o caminho para me sentir amada,
a calma no meio da ventania,
és a minha noite e o meu dia.

És a essência dentro do meu ser,
o amor que não posso perder,
a cura para toda a minha dor,
és a minha paixão e o meu amor.

És tudo o que eu um dia sonhei,
a alma gémea que tanto busquei,
a bússola que me indica o norte,
és o meu azar e a minha sorte.

És a outra metade perdida de mim,
a flor mais doce deste meu jardim,
a única mentira que um dia foi verdade,
és a minha vida e a minha eternidade.
Estupidamente Só...!

Já alguma vez te sentiste estupidamente só?
Como se andasses vazio no meio da imensidão,
como se fosses pedra polida de uma mó,
como se não fosses ninguém no meio da multidão?

Já alguma vez te sentiste estupidamente só?
como se vivesses fechado dentro de uma caixa,
como se apenas inspirasses tristeza e dó,
como se fosses o servo que apenas se rebaixa?

Já alguma vez te sentiste estupidamente só?
Como se não importasse aquilo que já viveste,
como se fosses amarra que desfez o nó,
como se fosses o resto daquilo que perdeste?

Já alguma vez te sentiste estupidamente só?
Já alguma vez te sentiste estupidamente triste?

Não? Pois eu sinto-me exactamente assim,
estupidamente só e estupidamente triste,
como se não houvesse mais nada dentro de mim,
como se passasse ao lado de tudo o que existe.

Não? Pois eu digo-te exactamente qual é a sensação
estúpida de estar perdido no meio do vazio:
é como se fossemos uma cicatriz no coração,
é como se fossemos leito onde não corre um rio.