sexta-feira, outubro 22, 2010

Folhas de Outono


Ficam caídas no chão envoltas no seu manto
Ornado de dourado e tecido com fios de natureza,
Lindas na sua inerte mas tão bela singeleza,
Hão-de ficar assim caídas, ignoradas, esquecidas
Antes que o vento as sopre e as revolva pelo ar
Sem destino, sem rumo, sem direcção para lhe dar.

Dantes orgulhosamente verdes, frescas e reluzentes
Envolviam os entrelaçados ramos de vida e de beleza,

Outrora vivas hoje abandonam-se e deixam-se cair
Uma após outra, após outra como que num bailado,
Trocando o abraço das ramos pela frieza do chão,
Ondas de castanho com laivos amarelos e vermelhos
Num tapete colorido, único, fascinante e sazonal,
Outono que chega na sua beleza única e especial.

domingo, outubro 17, 2010

Hoje deu-me para pensar...

Hoje deu-me para pensar... não sei porquê nem sequer sei se há de facto uma razão.
Pus-me a pensar em como as coisas mudaram nestas últimas décadas... e pus-me a pensar se a mudança foi boa ou nem por isso.
Eu ainda sou do tempo, como dizia a avozinha num conhecido anúncio televisivo em que as crianças iam a pé para a escola quer chovesse quer fizesse sol; nos recreios jogávamos ao lencinho, às escondidas, à cabra-cega, à apanhada, ao pião, às caricas... não perdíamos o tempo a enviar sms, mms e afins e a deixar os pais loucos com o dinheiro que se gasta nessas conversas tecladas; nas aulas levantávamo-nos quando o professor entrava, chamavamos-lhe Sr. professor e arriscávamos levar com a cana ou com a régua se faltássemos ao respeito ou se fossemos mais atrevidotes para não falar nas célebres orelhas de burro quando a coisa descambava mesmo... hoje os alunos batem nos professores, os pais batem nos professores e o respeito perdeu-se completamente, castiga-se o professor por ser duro e suspende-se porque ralhou ou foi mais agressivo com os meninos.
Naquele tempo, os miúdos brincavam juntos pelas ruas depois da escola...não havia adultos a supervisionar e sabíamos que não nos podíamos "esticar" mas ainda assim apanhávamos ar, sujávamos a roupa, brincávamos, ríamos, saltávamos e pulávamos como loucos... não tínhamos consolas, nem computadores, nem jogos electrónicos, mas éramos barras no dominó, no jogo do anel e em toda a panóplia de jogos de cartas.
Naquele tempo os pais tinham um ataque histérico que dava origem a meia hora de ralhete e muitas vezes a um tabefe ou a uma palmada bem assente quando por acaso ou fruto da brincadeira rompíamos a roupa... as calças eram caras, muitas vezes já tinham sido dos irmãos mais velhos e não eram para estragar... hoje a moda são as calças o mais rasgadas possível e de preferência a assentar em sítios que deixam a cintura a uns cêntimetros de distância.
Naquele tempo, sobretudo para os miúdos que cresceram nas aldeias deste país então rural, os tempos livres eram para ajudar no campo, para tomar conta do gado, para ajudar nas sementeiras, nas colheitas, nas lides do campo e nas lides domésticas... não tínhamos natação (a não ser quando tínhamos a sorte de viver perto de um rio ou ribeiro ou de ter um tanque suficientemente grande), equitação, ginástica, música nem toda a panóplia de actividades que os miúdos hoje têm ao dispor e que acabam por lhes encher o dia deixando pouco tempo para serem crianças.
Naquele tempo tratávamos os mais velhos por você, incluíndo os pais, e os pedidos dos mais velhos eram ordens... hoje é tu cá tu lá e nem a velha regra de que quando os pais se lembram que temos dois nomes é porque a coisa está mal parada resulta.
Naquele tempo tínhamos tão pouco... mas o pouco que tínhamos era tanto: éramos felizes, alegres, brincalhões, sabíamos o essencial sobre a vida e o mundo e não imaginávamos que para além da linha do horizonte se estendia todo um universo que um dia estaria ao nosso alcance com um simples clique...éramos crianças.
E hoje em dia? Serão as nossas crianças felizes? Será que esta geração tecnológica e consumista que tem tudo ao dispor sabe aproveitar o que lhe é dado tantas vezes com tanto sacrifício? Será que a sociedade que temos vindo a criar soube preparar os mais jovens para tempos adversos e menos fartos? Será que nós os mais crescidos os soubemos preparar para a vida... não para o aqui e agora mas para o amanhã?
E será que nos soubémos preparar a nós mesmos ou que nos deixámos embarcar neste onda consumista que vive de aparências, de estatutos e muitas vezes de farsas?
Será que seríamos capazes de voltar a viver sem televisão, sem microondas, sem carro, sem computador, sem telemóvel e sem todas as coisas a que ao longo dos anos nos fomos habituando? Será que nos soubémos preparar e preparar os outros para tempos mais complicados? Será que somos capazes de prescindir de tantas comodidades face às dificuldades que se avizinham?
Não sei... talvez. O que sei é que em pouco mais de três décadas as coisas mudaram tanto que olhando para trás é dificil reconhecer o passado... mas embora isso me preocupe o que me assusta mesmo é pensar que a este ritmo daqui a três décadas pode não haver sequer passado para onde olhar...e pior ainda pode não haver futuro no horizonte...
É isto que dá pormo-nos a pensar...

domingo, setembro 05, 2010

Um abraço


(Imagem retirada da Internet)



Tanto que um simples abraço pode dizer,
tanta emoção que nele se pode esconder,
tanto sentimento que nele se pode achar,
tanta coisa que se diz sem sequer falar.
Um abraço que ameniza a pontade de dor
deixada pela seta fatal de um não amor,
acalma o receio de um coração hesitante
minado pela dúvida e incerteza constante.
Um abraço alegra quem com ternura o recebe
e torna o passar dos dias mais doce e leve,
afasta a tristeza que por vezes ensombra a vida
e torna o momento numa recordação querida.
Um abraço pode deixar tantas saudades
de passados que foram na vida amizades,
pode contudo abrir novos rumos e caminhos
aos corações que não mais serão sozinhos.
Um abraço são palavras que se dizem sem dizer,
um abraço são mil emoções incapazes de se conter,
um abraço é uma estrada, um abrigo, uma ponte,
um abraço é um ontem, um hoje, um horizonte...

quinta-feira, agosto 12, 2010

Participação Antologia Internacional "Poesia Pura e Simples"




Sou Como

Sou como um peixe nadando no mar poluído
sem conseguir ver ou respirar em condições,
nadando em círculos, sentindo-se tonto e perdido
no meio do remoínho das mais vastas situações.

Sou como uma ave voando no céu escuro e nublado
sem conseguir perceber qual o rumo certo a tomar,
voando em círculos sem chegar a nenhum lado
onde possa as extenuadas asas enfim repousar.

Sou como uma folha arrancada pela ventania
sem conseguir parar de andar aos tropeções,
de um lado para o outro sem sonho ou alegria
onde possa ancorar as suas crescentes ambições.

Sou como uma labareda que a água extinguiu
sem saber sequer porque se deixou assim apagar,
fumegando a saudade do que um dia existiu
na força de um fogo que apenas sonha recomeçar.

domingo, julho 11, 2010

Em busca de outra sorte

Trago esta ansiedade cravada em mim como um punhal,
como uma poção mágica que me abafa e me faz mal,
como um fantasma que me assombra e inquieta,
como uma sonolência que não me deixa estar desperta.
Trago esta angústia presa a mim como uma maldição,
como uma força estranha que me vai minando o coração,
como uma dor que aos poucos me vai derrubando,
como ferro em brasa que por dentro me vai queimando.
Trago esta tristeza ancorada em mim como barco ao cais,
como um conjunto de negras e tenebrosas conjunturas astrais,
como um fardo que arrasto sem saber porque razão,
como uma alma imensa carente de carinho e compreensão.
Trago a alma triste, cansada, sem rumo nem direcção,
como uma folha que se sopra ao vento da palma da mão,
como uma bússola que já não encontra o norte,
como caminhante errante em busca de outra sorte.

quarta-feira, junho 30, 2010

Saramago num poema


Imagem retirada do Google - Site:static.publico.clix.pt

Nasceste num lugar diferente da Terra do Pecado,
estudaste num Manual de Caligrafia e Pintura,
Levantado do Chão onde a vida te quis prostrar
ficaste amarrado e preso ao Memorial do Convento,
No ano da Morte de Ricardo Reis iniciaste uma viagem
numa inigualável Jangada de Pedra de fino trato,
descobriste a História do Cerco de Lisboa e nunca
acreditaste em religião que não nesse desprezado
Evangelho Segundo Jesus Cristo que te feriu de morte
o orgulho de ser Português e te levou para outras paragens,
abriste os olhos dos homens num Ensaio Sobre a Cegueira
e sem nunca viveres numa Caverna foste um Homem Duplicado
que se multiplicou em muitos num largo campo de acção,
no Ensaio sobre a Lucidez deixaste antever o que seriam
As intermitências da Morte e numa Viagem de Elefante
abriste portas à discussão, à contradição, à revolta e ao espanto
ao dares a conhecer ao mundo esse teu Caim que seria sem saberes
o prenúncio de um fim… o teu fim…o fim do homem enquanto matéria
e o inicio do homem enquanto energia eterna e imortal
que leva A Bagagem do viajante Deste Mundo e do Outro,
e deixa neste mundo terreno saudade e As Pequenas Memórias.

segunda-feira, junho 21, 2010

Desfolho as letras do teu nome - 2º Lugar na Categoria de Soneto nos VI Jogos Florais do Concelho de Tondela

(Imagem retirada do Google)



Desfolho as letras do teu nome como malmequeres
amarelos colhidos num jardim à beira da estrada,
desfolho-as e penso no que dirás quando souberes
que me dizem que afinal por ti nunca fui amada.

Desfolho as letras do teu nome em quieta surdina
na escuridão da noite que me envolve os pensamentos,
desfolho-as e por momentos volto a ser a menina
que acreditava na pura inocência dos sentimentos.

Desfolho as letras do teu nome como uma ladainha
na esperança de que a repetição se torne realidade
e de que num passe de magia apareças junto de mim,

de que num gesto mudo ponhas a tua mão na minha
e de que por momentos o sonho possa ser verdade
e de que na escuridão da noite se faça luz por fim.

Sê luz...

Sê a luz que ilumina o caminho de alguém, sê a luz que altiva nos guia lá do alto, não sejas sombra nem mágoa para ninguém, não fujas nem...