Avançar para o conteúdo principal

Ensaio de conto/romance/ou coisa assim :) - Parte II

(...)
Mas não sabes e não te condeno por isso, na verdade nunca te expliquei, nunca falámos sobre isso… Agora que penso nisso somos amigas há tantos anos e nunca falámos sobre tanta coisa. Ainda assim achas que me conheces melhor do que eu mesma, continuas a achar que a minha vida é um mar de rosas porque nalgum ponto da minha vida, talvez de forma inconsciente optei por seguir um rumo diferente do que era esperado de mim: estudar, trabalhar, casar, ser uma esposa prendada e submissa, ter filhos e ser uma mãe maravilhosa. Dizes vezes sem conta que invejas a minha liberdade mas dizes outras tantas vezes que não serias capaz de viver assim… o que raio é viver assim? Até parece que sou uma freira em regime de clausura ou um eremita escondido do mundo na sua caverna.

Ai Guida! Pará de me tentar arranjar uma companhia, pára de me tentar impingir os teus amigos, os amigos dos teus amigos e afins, pára de me tentar impingir como se fosse uma mercadoria danificada ou um artigo descontinuado que se vende mais barato. Amiga do coração vê se percebes: eu não estou nem aí! Não procuro um príncipe encantado num cavalo branco, nem quero saber de riqueza, de bens, de família, de berço, de estatuto, de luxo, viagens, conforto, de beleza, de fatos e gravatas, status e afins… não quero nem saber! O que eu procuro não está à vista desarmada, o que eu procuro está escondido na profundidade de um olhar, na suavidade de um toque, na gentileza de um sorriso… o que eu procuro não se vê, apenas se sente.

Bolas Guida! Olha a conversa que acabei de ter contigo… embora tenha sido apenas na minha cabeça, embora continue sentada no mesmo banco de jardim onde atendi a tua chamada, embora me continue a sentir orgulhosa de mim mesma por ter tido a coragem, que tantas vezes me falta, de fazer o que quero sem pensar se estou a magoar alguém.

Olho para o relógio… caramba estou aqui há quase uma hora. Mas não me apetece ir para casa… está uma tarde deliciosa e eu estou tão bem disposta que me apetece respirar. Levanto-me…e sigo pela alameda… sinto debaixo dos pés o estalar das folhas secas que o vento foi arrastando e sinto vontade de saltar a pés junto para as pequenas poças que a chuva dos últimos dias formou, mas contenho-me…a custo… mas contenho. Entro no carro…e em poucos segundos volto a sair: que se lixe, hoje vou fazer o que me apetece! Saio, tranco as portas, atravesso calmamente o jardim, dirijo-me aquela explanada onde ando há meses para ir, sento-me tranquilamente e olho em redor: belo fim de tarde, sim senhor.

- Olá boa tarde! Então o que vai ser? – Pergunta-me uma voz jovem e sorridente.

- Olá boa tarde! Então vai ser um café cheio e um pastel de nata… com canela se faz favor.

- Com certeza. É só um segundo.

E naquele segundo… naquele breve segundo: a vida é bela, o mundo maravilhoso e eu sinto que renasci, sinto que dentro de mim se deu uma guerra civil, sinto que nada será como antes, sinto que quero, que preciso e que vou viver a vida. Sim… mas como eu quero e porque eu quero, não como querem que eu a viva. Porque a vida vale a pena e só a vive quem pode…e acabei de decidir que eu posso! (…)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

É dificil

  É difícil não nos deixarmos afectar pelo que nos rodeia, sobretudo quando irradia energia negativa por todo o lado. É difícil não deixar que a energia negativa nos envolva e perturbe. É dificil aprender a lidar com a agressividade gratuita, com a necessidade de espezinhar para mostrar poder, com a inata vontade de espalhar a frustração agredindo quem está em redor. É dificil manter a sanidade no meio de uma insanidade descontrolada e despropositada... O que fazer? Sofrer com isso ad eternum ou mandar à merda mentalmente e seguir em frente!

Chão

Tojos, arbustos, carqueijas, giestas, mato, rosmaninho, arruda e ervas benfazejas,  aves que fazem ninho, rochas ingremes e salientes,  águas frias e correntes, aldeias aninhadas no sopé, montes a perder de vista,  ermidas erguidas na fé, terra que o coração conquista, serenidade que embala e acalma, verde manto que o olhar prende, paraíso que nos acalenta a alma, chão que nos embala e entende!

Não posso...

Não posso, não tenho tempo. Não faço, não tenho tempo. Não vou, não tenho tempo. Não vejo, não tenho tempo. Não ouço, não tenho tempo. Não ajudo, não tenho tempo. Não tenho tempo, não tenho tempo, não tenho tempo. É talvez a frase mais dita e a desculpa mais esfarrapada da história das desculpas. Talvez um dia precises e, tal como tu não tiveste, talvez então também ninguem tenha tempo para te ouvir, para te ajudar, para te amparar. Talvez um dia queiras... E realmente já não haja tempo... E aí sentaste no vazio da tua vidinha ocupada a lamentar todas as oportunidades que perdeste porque não quiseste ter tempo. Talvez um dia queiras ter tempo e já não haja tempo... talvez queiras tempo para abraçar, para escutar, para amparar, para ver, para ouvir e já não tenhas tempo porque inesperadamente a vida te pregou uma partida e passaste a ter todo o tempo do mundo no outro mundo. Deixa de perder tempo com coisas e pessoas que não valem um minuto e arranja tempo para v...